20110729

DIAS E DIAS

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Oiço com alguma frequências pessoas a dizerem "os dias são todos iguais" e fico extremamente chateado, pois tal frase não é de todo verdadeira. Os dias não são todos iguais, cada dia é único. Pessoas que afirmam tal coisa revelam-se incapazes de reconhecer os pormenores que torna cada dia diferente e singular, quer seja numa perspectiva positiva, quer seja numa perspectiva negativa.

Existem dias em que o sol tira-nos da cama. Dias em que tudo corre [perfeitamente] bem.Dias em que o sorriso ocupa o nosso rosto. Dias em que as boas notícias subordinam os lábios alheios. Dias em o positivismo irradia das pessoas. Dias em que a alegria ocupa todo o nosso ser.  Em dias assim só tenho vontade de gritar ao mundo o quanto sou feliz e afortunado. Apetece-me sair à rua para que todos possam ver, e se contagiem, com tamanha satisfação e alegria. 

Dias como estes são de facto uma maravilha, no entanto, nem todos os dias são dias de festa!

Existem dias em que não devemos sair da cama. Dias em que tudo o que pode correr mau, corre efectivamente. Dias em que queremos dar o nosso melhor, mas acabamos por revelar o que de pior existe em nós. Dias em que queremos agradar as pessoas, mas só conseguimos desiludi-las. Dias em que queremos triunfar, mas que estamos condenados ao falhanço. Em dias destes só tenho vontade de desaparecer do mapa, ficar irrastreável, para que ninguém possa ver a minha frustração, as minhas fraquezas e/ou o meu fracasso. Dias assim são definitivamente para esquecer!

Todos nós já tivemos dias de festa e dias para esquecer, faz parte do ciclo da vida, num dia estamos em cima e no outro estamos em baixo. Isto é filosofia barata, eu sei! Mas é de facto verdade! Deixa-me cá confessar uma coisa, eu prefiro dias para esquecer. Devem pensar que sou louco! Mas deixem-me ao menos explicar o porquê, antes de formarem qualquer opinião à meu respeito.

Os dias para esquecer, apesar de toda a sua carga negativa, tem uma grande carga positiva. Nestes dias, em que estamos mesmo em baixo, somos capazes de reconhecer quem são verdadeiramente os nossos amigos. Enquanto há festa, todos marcam presença, mas quando esta acaba todos desaparecem. Quero com isto dizer que, enquanto estamos bem ficamos rodeados de pessoas, mas quando estamos em baixo estas mesmas pessoas desaparecem. É nestes momentos que somos capazes de reconhecer os nossos amigos: são aqueles que mostram-se dispostos a estar connosco mesmo que não seja num ambiente festivo, pois gostam de nós independentemente do ambiente em nos encontramos. Podem pensar "sim, todos sabem isso", o problema é que apesar de sabermos, nunca temos este aspecto em consideração. 

Para além disso, os dias para esquecer são de facto inesquecíveis. Não me estou a contradizer!Explico já. Os dias para esquecer, são dias marcados pela adversidade, com as quais aprendemos e crescemos enquanto pessoas. Dias em que somos obrigados a encarar frontalmente situações que preferíamos evitar. Dias assim, apesar de tudo, são dias que nos marcam e constituem a base de todo o nosso ser!

Dias para esquecer são dias para não esquecermos que a vida não é só festa.  Dias para esquecer são dias para não esquecermos que a vida é feita de obstáculos. Dias para esquecer são dias para não esquecermos quem realmente são os nossos amigos. Dias para esquecer são dias para não esquecermos que cada dia contribui para a construção do nosso ser. Dias para esquecer são dias para não esquecermos que todos os dias são inesquecíveis!

20110728

TIO ZÉ

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Cada pessoa possui um trajecto de vida singular, sendo por isso única e especial à sua maneira. Mas todos nós, sem excepção, já tivemos um Tio Zé na nossa vida, aquela pessoa que gosta muito de falar e que fala muito! Normalmente gostamos muito dele, mas por vezes apetecia não ter de o ouvir, pois tem a mania que sabe tudo e que sabe mais do que os outros! Para além disso, só fala de coisas desinteressantes, aborrecidas e que de nada servem. Nos encontros casuais fazemos o possível para o despachar, mas por azar do destino, ou constante da sorte [ainda não me dicidi?],as conversas parecem infinitas. Aí sofremos por horas à fio, pois temos de fingir estar a ouvir, e o pior, temos de aguentar o discurso até ao fim com uma expressão de interessa no rosto!

O meu Tio Zé possui licenciatura em Sociologia Barata, pela Universidade Internacional da Vida, com mestrado integrado em Assuntos Variados do Quotidiano. Em alguns casos particulares, possui também doutoramento em Evolução das Gerações e dos seus Comportamentos, pela Universidade Individual de Experiência. No entanto só fala de coisas sem sentido. Não percebo para que serviram tantos estudos!

O Tio Zé usa bigode, pois este simboliza a superioridade intelectual que detém face à todos os outros mortais. Tirar o seu bigode é tirar a sua intelectualidade. Julga-se o maior! Pensa que é melhor do que todos os outros. Acha que é "fixe"!  Considera ter um espírito jovem e uma mente aberta. MEU DEUS! Quem é que ainda usa bigode? Na realidade, o Tio Zé, só faz é figuras tristes...Enfim! O Tio Zé é um cromo!

Este é o retrato do Tio Zé para mim quando era novo. Conforme o tempo foi passando, fui crescendo e ganhando experiência. Durante este processo dei conta que estava a seguir os mesmos estudos que o Tio Zé. AHHH! Medo! O que antes era chato e sem serventia, tornou-se interessante e extremamente útil. Somos embebidos por uma vontade de saber mais e máximo. Qual será então a diferença entre o que o Tio Zé dizia e o que agora estou a aprender!? A resposta é dura! Querem realmente saber? Pronto, aqui vai. Nenhuma! A diferença reside na compreensão. Continuo sem perceber! Quando era novo compreendia tudo o que o Tio Zé dizia, mas mesmo assim não as achava nada de especial. 

Este conceito de compreensão é bastante limitado. Compreender é ser capaz não só de perceber as várias partes constituintes, mas também ser capaz de relacionar as partes e os todos, e vice-versa e versa-vice! Sem esta capacidade não somos capazes de compreender muitas coisas.Por isso é que tudo aquilo que o Tio Zé dizia não fazia sentido! É perfeitamente compreensível! Certo!? Agora porém, fez-se luz! Agora sou capaz de as compreender! Por isso é que são tão interessantes!

O Tio Zé é agora uma pessoa especial. Quer dizer. Sempre foi, só que agora sou capaz de o reconhecer! Era de facto uma pessoa "fixe" com um espírito jovem e com uma mente aberta. Sempre foi o maior e o melhor, não comparativamente com os outros, mas porque tentava fazer de mim maior e melhor pessoa! Quer através das suas palavras amigas. Quer através dos seus gestos. Quer através das suas repreensões. Quer através do seu silêncio. Quer através... Agora percebo que o Tio Zé é na realidade um herói! Entretanto deixou de usar bigode, porque percebeu que está fora de moda. No entanto não se pode dizer o mesmo de mim! Sim...Confesso! Agora uso bigode! Agora sou o Tio Zé  para uma quantidade de miúdos. Mas não me preocupo. Porquê? Porque tenho a certeza que um dia passarei de cromo à herói! Um dia serei reconhecido por marcar a diferença! Assim espero!?

O Tio Zé, personagem fictícia, corresponde na realidade a todas aquelas pessoas  que passam pela nossa vida e que fazem a diferença. Manifestam-se sob a forma de parentes, amigos, professores, vizinhos, desconhecidos.... Pessoas que não são devidamente valorizadas, porque [em muitos casos] não são devidamente compreendidas! Pessoas que passam pela nossa vida numa altura errada. Não por não fazerem falta naqueles momentos, mas por não sermos capazes de reconhecer que são de facto necessárias!

O meu trajecto de vida foi marcado por vários "Tios Zés"! E o teu!?